Contabilidade, confiança pública e o dever institucional de enfrentar os alertas do mercado

24 de março de 2026

Por Comunicação CFC

Jornal Folha de S.Paulo publica artigo do presidente do CFC, Joaquim Bezerra Filho, que aborda, sob perspectiva técnica e institucional, os recentes episódios envolvendo instituições financeiras e companhias abertas, e destaca a importância da contabilidade, da auditoria independente e dos mecanismos de governança para a preservação da confiança nos mercados. No texto, o presidente da autarquia defende o rigor na aplicação das normas, a atuação responsável dos agentes envolvidos e o fortalecimento das instituições como elementos essenciais para a estabilidade econômica e a credibilidade do sistema financeiro brasileiro.

Confira a íntegra do texto abaixo:

Opinião

Contabilidade, confiança pública e o dever institucional de enfrentar os alertas do mercado

  • Episódios recentes reacenderam um debate que precisa ser tratado com responsabilidade técnica
  • Grande parte dos riscos que afetam sistema financeiro e mercado de capitais tem origem em questões contábeis

Joaquim Bezerra Filho

Contador, consultor de negócios e presidente do Conselho Federal de Contabilidade

Os episódios recentes envolvendo instituições financeiras e companhias abertas reacenderam um debate que precisa ser tratado com responsabilidade técnica, imparcialidade, equilíbrio institucional e maturidade pública: a preservação da confiança nos mercados por meio da qualidade da informação contábil, da auditoria independente e do adequado funcionamento dos mecanismos de governança, regulação e fiscalização.

Muito além de fatos isolados ou casos específicos (cabendo mencionar que muitos ainda estão em fase inicial de investigação), esses episódios funcionam como alertas estruturais. Eles evidenciam que a estabilidade dos mercados, a segurança dos investidores e a credibilidade das instituições dependem da correta aplicação das normas contábeis, da atuação rigorosa e cética da auditoria e da efetividade dos sistemas de supervisão. Quando há falhas técnicas, interpretações frágeis ou complacência com o erro, o impacto se espalha por todo o ecossistema.

Joaquim Bezerra Filho, contador, consultor de negócios e presidente do Conselho Federal de Contabilidade

A contabilidade é a linguagem central da confiança pública. É por meio dela que riscos são mensurados, decisões são fundamentadas e responsabilidades são atribuídas. Quando essa linguagem é distorcida, relativizada ou mal interpretada, o problema ultrapassa o limite de um balanço individual e afeta a credibilidade do sistema como um todo. Proteger a contabilidade é proteger o interesse público.

O Brasil construiu, nas últimas décadas, um arcabouço contábil moderno e alinhado aos padrões internacionais, integrando seu mercado de capitais ao ambiente global. Esse avanço representa uma conquista institucional relevante, mas impõe uma exigência clara: normas mais sofisticadas alinhadas com o aumento da complexidade de negócios, incorporação de tecnologia e inteligência artificial, demandam rigor técnico, preparo profissional e responsabilidade institucional na sua aplicação, interpretação e fiscalização. Em temas que envolvem confiança pública, não se deve postergar decisões ou relativizar responsabilidades, isto tem um preço elevado.

Nesse contexto, a auditoria independente assume um papel estratégico na preservação da confiança do mercado. Deve ser compreendida como um instrumento de fortalecimento institucional, e não como um fator de instabilidade. Identificar falhas, apontar inconsistências, revisar modelos e exigir correções não fragiliza o sistema; ao contrário, sustenta e reforça sua credibilidade. O enfrentamento responsável dos erros, quando conduzido com rigor técnico, ética e independência, valoriza a auditoria e contribui para a elevação contínua dos padrões da profissão.

Instituições financeiras, companhias abertas e agentes de mercado se beneficiam de ambientes regulatórios previsíveis, decisões baseadas em fundamentos contábeis sólidos e fiscalização qualificada. Esse conjunto reduz riscos sistêmicos, amplia a segurança jurídica e fortalece a confiança de investidores nacionais e internacionais. E, este é o papel das instituições regulatórias e fiscalizadoras.

A pluralidade de formações nestes órgãos é positiva e necessária. Contadores, economistas, juristas, administradores e outros profissionais, quando atuam de forma integrada, contribuem com visões complementares. Ainda assim, grande parte dos riscos que afetam o sistema financeiro e o mercado de capitais tem origem em questões de natureza contábil, como classificações inadequadas, avaliações inconsistentes, falhas de divulgação ou interpretações excessivamente permissivas das normas. Por essa razão, a presença qualificada de profissionais com sólida formação contábil e experiência prática representa um ativo institucional, inclusive no debate sobre a composição dos órgãos reguladores, como a CVM.

Enfrentar o erro e transformar sua ocorrência em oportunidade de melhoria contínua, com seriedade e responsabilidade, não significa atacar a profissão contábil; significa fortalecê-la. Esse é, precisamente, o papel do Conselho Federal de Contabilidade e dos Conselhos Regionais de Contabilidade. A credibilidade da contabilidade brasileira foi construída ao longo de décadas a partir da disposição permanente de evoluir, corrigir rumos e aprimorar práticas. O silêncio diante de falhas não protege ninguém. A atuação técnica, ética e responsável, ao contrário, protege a sociedade, o mercado e o próprio profissional.

Os alertas que o mercado insiste em nos dar, portanto, devem ser compreendidos como oportunidades de amadurecimento institucional. A confiança pública se constrói com sistemas robustos, fiscalização efetiva, profissionais qualificados e uma cultura clara de responsabilidade técnica. Em um cenário de crescente complexidade econômica, inovação financeira e transformação digital, investir na qualidade da contabilidade, da auditoria e da fiscalização é investir na estabilidade do mercado e na credibilidade do país. A contabilidade atua nos bastidores, mas sustenta um dos pilares mais sólidos da confiança pública. Proteger esse pilar é um dever institucional permanente.

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